segunda-feira, 18 de maio de 2009

Seja o Super homem!!


O Übermensch



por Vitor Coelho


Friedrich Wilhelm Nietzsche(15/10/1844 - 25/08/1900), filósofo nascido na Prússia, em região que atualmente pertence à Alemanha. O conceito doÜbermensch foi apresentado em "Assim Falou Zaratustra". Não há um "super-homem" real, nem mesmo Nietzsche foi, mas segundo o autor, Napoleão Bonaparte, Júlio César, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Shakespeare, Goethe e até mesmo Jesus Cristo chegaram perto de ser.

Seguindo o rastro dos comentários sobre o Superman, eu decidi pesquisar um pouco sua origem, induzido pela curiosidade em entender a antítese gerada pela criação de Jerry Siegel e Joe Shuster, dois judeus, e o conceito de Übermensch do prussianoNietzche, que comentam por aí, foi influenciador direto da campanha pela pureza da raça ariana do nazismo.

Colocando de lado valores políticos e ideológicos, o que conta aqui é o valor filosófico do Übermensch. Nietzche diz haver uma maneira de se atingir um estado de perfeição humana, ou pelo menos buscá-lo, física e mentalmente. “O que é bom?”, perguntava ele, e o próprio respondia: tudo que aumenta no homem a sensação e a vontade de poder. O livro “O Anti Cristo”, base para nossa pesquisa, é assim chamado porque Nietzche vê no cristianismo a contrariedade do que acredita, ou seja, ele condena o contentamento, a compaixão e a humildade. Mas vamos dar um salto nisso tudo e cair direto no ponto que nos interessa.

De acordo com o filósofo prussiano, a humanidade parou de evoluir quando começamos a adotar conceitos como compaixão, que não nos deixam permitir que tombem os mais fracos para que os mais fortes se elevem. Nietzche acusa o cristianismo de ter gerado uma cultura de “mal” que impede o progresso e aevolução humana. De acordo com ele, o poder é o destino do homem, e a busca por ser o mais forte é natural e respeitável. Esse conceito de “maldade” criado pelo cristianismo acaba por estigmatizar essa busca de evolução, usando a culpa como instrumento de controle.

E a evolução está exatamente nesse entender, nessa cadeia de raciocínio: de que é preciso negar a questão moral, pois ela fere os instintos do homem. Compaixão é, em suas palavras, depressora, pois contraria a lei da evolução, impedindo assim a seleção natural. Logo, alguém que compreenda sua ideologia, que entenda a necessidade da seleção dos mais aptos, da necessidade de crescer a todo custo, que saiba que são necessários sacrifícios da espécie para que a raça humana caminhe para a perfeição, esse alguém seria um Ubermensch em seu meio, ou em nossas palavras, seria um super-homem.

Superman: Entre A Foice E O Martelo, de Mark Millar, Dave Johnson e Kilian Plunkett mostram o que aconteceria se o Superman caísse na União Soviética. Nessa realidade, Lex Luthor é um cientista genial e principal oposição ao Superman, símbolo-mór do comunismo mundo afora.

Independente de estar certo ou errado, Nietzche cria o conceito do super-homem, no qual algumas fontes indicam que Siegel e Shuster se basearam ao criar o azulão. Tomando Clark Kentcomo fonte de estudo, além da perfeição física e intelectual, o que mais ele tem do super-homem de Nietzche?

Na verdade, nada, já que, apesar de criado por judeus, está mais ligado aos conceitos cristãos que o filósofo abominava, como a compaixão, a humildade e a culpa. Se por um lado ele é a defesa dos ideais filosóficos, comprovada pela descrição de Kryptoncomo sendo um planeta de homens que atingiram a perfeição, por outro ele é a resposta moral a esses mesmos ideais.

É então que descubro que em seus primeiros esboços o Super-Homem era um governante poderoso que dominava com mão de ferro seus súditos. Este Super-Homem tinha um detalhe digno de nota: era careca.

Claro que o Super-Homem do inicio não era esse de hoje, como podem ver na excelente matéria do Márcio Teixeira aqui no Fanboy, mas mesmo que tenhamos um Super-Homem déspota, ele não se enquadra em Nietzche por um motivo: ele não busca a evolução, já que ele é o ponto finalda evolução, e não o caminho que leva a ela. Siegel e Shuster não criaram um Super-Homem tão forte quanto o de hoje, mas aquele já era um homem com seu potencial atingido. Lembremos que, apesar de ser uma ficção, seus poderes eram “plausíveis”, como se fossem evoluídos das capacidades humanas: salto, resistência à dor, força, velocidade... Todas capacidades humanas, apenas evoluídas. Portanto, ele era já o objeto final da evolução.

Sendo assim, vamos estabelecer alguns pontos:

Ponto 1: essa qualidade de ser o objeto final impede o homem de fazer seu próprio caminho. Da mesma maneira que o cristianismo ditava o futuro do homem com seus objetivos, o Super-Homem marca o ponto máximo onde se pode chegar, e isso é uma ofensa grave ao ideal filosófico.

Ponto 2: o Super-Homem está lá para impedir que a humanidade sofra com seus problemas. Ele salva crianças e velhos, pára trens desgovernados, impede a queda de aviões, chuvas de meteoros destruidores, seres de outros planetas, guerras, etc, etc... E impede com isso que a humanidade aprenda com seus erros e problemas. Sua compaixão refreia a evolução humana, como Nietzche previa e proclamava. Se alguém realmente acredita nisso como o filósofo acreditava, ficaria furioso. Você está anotando, certo?

seleção natural foi tese do naturalista inglês Charles Darwin, publicada no livro A Origem das Espécies, que bateu de frente com a igreja ao afirmar que o homem e o macaco têm um antepassado em comum. Suas idéias foram mais tarde distorcidas e usadas como prova de que umalimpeza genética tornaria a humanidade cada vez mais forte e avançada. Somado ao preconceito, tais idéias provocaram verdadeiros genocídios.

Ponto 3: ser o super-homem filosófico em pessoa, tendo atingido a perfeição e não seguir os preceitos filosóficos do mesmo é no mínimo incoerente. Da mesma forma que alguns neo-nazistas acusam Hitler de tolerância, um homem com a fé focada na evolução de Nietzche acharia Kal-El uma ofensa gravíssima a toda raça humana.

Ponto 4: o super-homem de Nietzche tem que buscar a evolução, ser contra tudo que provoca o retrocesso e acreditar que o fim justifica os meios. Clark e seu respeito ao livre-arbítrio da humanidade está longe disso.

Ponto 5: o super-homem filosófico sabe que pode ser necessário o uso da força e do controle, sabe que suas capacidades o colocam acima dos demais.

Ponto 6: o super-homem de Nietzche ficaria furioso, se, tendo ele todo o entendimento do que é necessário fazer para que a humanidade atinja seu potencial máximo, de repente, cai do céu alguém com o poder de Kal-El, mas completamente avesso a suas teorias.

Espero eu você tenha anotado tudo, e revendo o que foi pensado chegue à mesma conclusão que eu. A dica mestre é: ele é careca.

Sim, o verdadeiro Super-homem de Nietzche é Lex Luthor. Ele é aquele que sabe que a evolução é necessária, que acredita nos fins acima dos meios, que se arrisca e se dispõe a cometer atrocidades pelo ideal de atingir mais e mais poder. Ele que se preparou para atingir seu potencial máximo e ele que teve de ver um homem como ele queria ser surgir e praticar o oposto ao que ele acredita.

Psicologicamente, sem Kal-El, Lex talvez não fosse um vilão, ou talvez fosse um grande líder de estado (mesmo que sob um regime totalitário). Eu gosto muito do Lex de “Entre A Foice E O Martelo”, pois ele representa bem esse super-homem filosófico.

Se Nietzche fosse um personagem de quadrinhos, com certeza absoluta, seu grande nêmesis seria o herói de capa, e não o cristianismo. Primeiro porque o cristianismo não existe nos quadrinhos, e segundo porque os heróis seriam a grande ameaça ao pensamento progressivo e evolutivo de sua ideologia. Se Nietzche existisse lá, ele estudaria em Gotham, onde há o único herói que não se abate com a presença do Super-Homem e busca de si mesmo atingir seu potencial máximo, ainda que peque pela qualidade moral e pela compaixão recalcada. Nietzche pode não estar lá, mas tem em Lex um defensor de suas ideologias. E na cabeceira de Luthor, embaixo dos óculos meia-lua para leitura, está um exemplar da primeira edição de “O Anti Cristo”, ou ainda “Assim Falou Zaratustra”.

Superman - Entre a Foice e o Martelo - Parte 1 (8.91Mb)

Superman - Entre a Foice e o Martelo - Parte 2 (9.4Mb)

Superman - Entre a Foice e o Martelo - Parte 3 (10.54Mb)

 

8 comentários:

H.C. disse...

vlw pelo comentário no blog Vende4.blogspot.com
seu blog tem um belo conteudo.
abraços

Ontem fui ao cinema disse...

Quarinhos naum fazem bem ao cerebro...Esse seu texto sim!!
Vlw

palavraacida disse...

Ótimo texto. De verdade.

Ricardo Thadeu disse...

Pensar na evolução da espécie através do seguimento de um impulso que nos torna vulneráveis pode ser perigoso. A busca pelo poder, tida pela igreja com um pegado e por Nietzche como uma característica normal, é, em verdade, algo que surge aleatoriamente, independente da cultura. Pense bem: qual é o princípio oriental que impede a busca pelo poder? Eles não têm um Deus e, com exceção dos monges, nenhum deles é obrigado a ser humilde ou ter compaixão. Dentro do pensamento ocidental Nietzche está coberto de razão, mas o mundo é muito grande e a humanidade heterogênea. Se desconsiderarmos os quadrinhos e partirmos para os mangás, Picolo (inimigo de Goku) leria Nietzche, caso soubesse ler.

Anderson Meireles disse...

Muito bom esse texto cara!
o super-homem de Nietzche eu ja conhecia. Mas a origem do super-herói dos quadrinhos não.
Gostei bastante.
PS: Só o tamanho da fonte que dificulta um pouco a leitura.
Abraço!

Angel disse...

O Übermensh de Nietsch eu já conhecia, o conceito.Foi o que me levou a estudar mitologia nórdica inclusive.Mas eu não sabia que o personagem dos quadrinhos, o superman, foi criado por judeus,apesar de obviamente apresentar traços de comportamento da doutrina judaico-cristã.Muitooo legal o teu blog. Sempre que der vou dar uma paradinha aqui pra ler.
Ah, e se depender de Nietshe e sua evolução, não vacinaríamos mais as crianças, pra que só sobrevivessem os mais fortes...acho que daí que parte as idéias que foram adotadas pelos nazi...
bjsss

http://infonews2012.blogspot.com

Shaka Kama-Hari disse...

Interessante esse texto, muito mesmo... Sobre a crítica do Anticristo, ela é verdade... Gostei mesmo do texto...

Dedeah C. disse...

Que engraçado...hj dpois do trabalho passei no shopping e comprei o Ecce Homo do Nietzsche! E agora eu entro no seu blog e tem dois posts sobre ele! rss Q coincidência!

Posts excelentes como sempre ;)